Guilda de Vinhos

Guilda de Vinhos | Perfil: reflexões de um mercador de vinho (Sávio Soares)

perfilSávio Soares (à esquerda, com o produtor Jean-Claude Chanudet) se orgulha de representar os produtores de vinho com os quais trabalha. Seu relacionamento com eles vai além do trato comercial, como a imagem ao lado bem mostra. Ele gosta de fazer negócios na cozinha da casa das pessoas. Um costume que herdou de seu avô, fazendeiro em Minas Gerais, que se sentava à mesa da cozinha com os compradores de gado e café. In coquina veritas!

 

Reflexões de um mercador de vinho
(Por Sávio Soares, especial para o blog da Guilda de Vinhos da ADunicamp)

No trabalho do produtor que cuida de sua vinha está o segredo e a qualidade do vinho. Por isso se torna essencial para mim conhecer bem e manter um estreito relacionamento com cada produtor com os quais trabalho. O vinho é a imagem do produtor.

Eu reconheço nos vinhos produzidos sem qualquer intervenção – denominados “naturais” – a sensualidade e a pureza de caráter, onde coisa alguma foi contida em sua natureza, porque nada foi manipulado. Pode parecer contraditório, mas reflete a lição fundamental que em vitivinicultura “menos é mais”, que se deve deixar a natureza fazer o vinho, com o homem atuando como seu humilde serviçal, não seu criador. Somente um produtor consciencioso sabe a forma como o vinho se liga à natureza.

Acredito que fruta é apenas um dos aspectos do vinho e que o vinho, quando é realmente complexo e interessante, retira seus elementos do solo e do ambiente onde foi gerado; seus aromas e sabores podem e devem expressar muito mais do que simples fruta. E é este o objetivo do produtor, concentrar seu trabalho no vinhedo, para que a vinha produza um fruto saudável e maduro, que, ao se transformar em vinho, expresse,além do senso de lugar (terroir), tradição, história e características da casta, principalmente sentimento e emoção.

A modernização e excesso de manipulação na adega, buscando corrigir o que comercialmente se considera um defeito, pode garantir o conforto e sucesso comercial, porém à custa da perda da espontaneidade, da autenticidade e do senso de extremo. Isso leva a uma uniformização, que garante altas produções e cores brilhantes, mas falha ao expressar a essência do lugar e o perfil da safra, depurando o vinho a ponto de torná-lo monocromático. Este vinho não me interessa, pois perdeu o que há de mais bonito e representativo nesta cultura milenar e se tornou simplesmente uma bebida.

Ao cultivar o hábito de beber e o interesse em aprender sobre o vinho, sempre descobrimos que estamos continuamente aprendendo. A experiência é infindável, que se renova sempre, tal como os inúmeros aromas encontrados no vinho. Igual ao vinho talvez só a natureza e o homem. Sempre imprevisíveis, sempre uma nova lição, sempre uma nova descoberta.

Em 1983 descobri o vinho trabalhando em um restaurante no Soho, em New York, onde todos os vinhos da carta eram servidos por taça – e eram todos da Borgonha! Desde então, passei a ver a vida com outros olhos. Desde que comecei a trabalhar com vinhos, não há um dia que não aprendo ou descubro algo novo nesse negócio. O aprendizado se estende além dos vinhos propriamente ditos e inclui lições de química, geologia e geografia e, sobretudo, a oportunidade de conhecer as pessoas –sua cultura, culinária, história e língua.

Dentre as várias posições que ocupei no decorrer de três décadas, destaco o trabalho desde 2004 como importador nos EUA e distribuidor na cidade de New York (Savio Soares Selections).

No Brasil, abri em 2012, juntamente com minha sócia Ivanete de Oliveria, a importadora Galeria do Vinho, localizada em Santos, SP.

Represento unicamente vinhos europeus, minha especialidade e paixão. Todos os vinhos com os quais trabalho são provenientes de vinhedos que um dia foram cultivados por monges. Por isso gostaria de ressaltara grande importância do papel do importador, sommelier e lojista na educação do consumidor, pois um vinho cheio de história e produzido com respeito e esmero, quando consumido sem o conhecimento desses fatos, perde a metade da sua beleza e encanto.

Vamos beber observando, analisando, aprendendo, educando e sempre apreciando.

Feliz de nós que descobrimos o vinho!

Saúde!

 SAIBA MAIS

Os vinhos orgânicos, biodinâmicos e naturais são bem mais saudáveis. Quanto menos processado for nosso alimento, mais benéfico ele será.

  • Vinho orgânico

Produzido de uvas cultivadas sem utilização de agrotóxicos, tais como fertilizantes químicos e defensivos químicos – pesticidas, inseticidas, herbicidas e fungicidas. Somente o uso de enxofre elementar (SO2) e sulfato de cobre é permitido.

  • Vinho biodinâmico

Produzido de uvas sem traços de agrotóxicos, onde o trabalho nos vinhedos obedece aos preceitos da viticultura biodinâmica, definidos pelo antropófago austríaco Rudolf Steiner. Uma prática mais profunda e mais extrema que a viticultura orgânica, que não envolve nenhuma utilização de produtos sintéticos. O calendário dos trabalhos vitícola (no vinhedo) e vinícolas (na adega) são baseados nas fases da lua e em resultados empíricos. A fermentação é espontânea, iniciada e terminada por leveduras selvagens, existentes no local.

  • Vinho natural

Produzido de uvas provenientes de ambas as formas de vitivinicultura descritas acima ou, ainda,de outro método, chamado “bio-logic”, que guarda muitas semelhanças com o método biodinâmico, sem seguir, porém, um regulamento mais rígido. A diferença, é que, o vinho natural não sofre qualquer intervenção na adega, ele praticamente se faz sozinho, sem manipulação ou correção. Nada é adicionado ao vinho, tais como o açúcar, que é acrescentado ao mosto de uva para aumentar o nível do álcool, ou ácido tartárico, usado para corrigir a acidez, ou, ainda, leveduras, enzimas, corantes etaninos. São muitos os produtos sintéticos que podem legalmente ser adicionados ao vinho, e isso permite ao enólogo adulterar completamente a estrutura do vinho. Esses recursos são muito usados sempre que a uva levada à adega não for de boa qualidade. O vinho natural é fermentado por leveduras selvagens e engarrafado sem filtração, clarificação e, na maioria dos casos, sem a adição de SO2 (anidrido sulfuroso) (que é produzido pela própria uva como defesa e, por isso, às vezes pode ser usado, mas sempre em doses baixíssimas).

(SS)

Onde encontrar:

savio@savioselections.com

www.vinhonatural.com.br

www.savioselections.com

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