Guilda de Vinhos

Guilda de Vinhos | Espumante brasileiro, 100 anos

guilda“Produzir vinho é relativamente simples, só os primeiros duzentos anos são difíceis”. Assim costumava dizer a baronesa Philippine de Rothschild (do Château Mouton Rothschild), morta em 22 de agosto de 2014, aos 80 anos.

Pois bem, o espumante brasileiro completou 100 anos em 2013. O vinho brasileiro ainda vive dias complicados, mas esperemos que não sejam necessários mais 100 anos para superar a fase difícil.

Dizem que uma grande história é feita de muitas pequenas histórias. Vamos a elas.
A unificação italiana (Risorgimento) (1848−1870) e a séria crise econômica em parte da Europa nas últimas décadas do século XIX provocaram um grande fluxo imigratório de italianos e alemães para o Brasil.

Em 1876 cfoto1hegaram à Colônia de Conde d’Eu (atual Garibaldi) 700 imigrantes italianos oriundos do Tirol austríaco. Entre eles, Manuel Peterlongo, um agrimensor, que fez em 1890 o traçado urbano e rural da cidade de Garibaldi. Manuel Peterlongo iniciou uma pequena produção de espumantes (feitos pelo método tradicional) e, em 1913, inscreveu um desses produtos no concurso da primeira exposição de uvas de Garibaldi, ganhando sua primeira medalha de ouro. Esse é o registro oficial do início da produção de espumantes na Brasil.

Mas antes disso, em 1904 os irmãos Maristas chegam ao sul do Brasil e plantam uvas na Vila de Conde d’Eu para fazer vinho de missa. Foi assim fundada a Granja Santo Antonio, mais tarde Pindorama S/A − Vinhos e Champanhas. Um irmão de nome Pacômio fez crescer a vinícola. Em 1930 a cantina produzia 400 mil de litros de vinho.

foto2O presidente Getúlio Vargas costumava servir o champanha Peterlongo nas cerimônias oficiais do governo federal, como na visita oficial da Rainha Elizabeth II. Em 1932, ele assinou um decreto que visava proteger e fomentar a indústria nacional de vinhos. Uma curiosidade: a Peterlongo era a única vinícola brasileira que podia chamar seu espumante de “champanha”.

A vinícola Salton foi fundada em 1910, mas iniciou a produção de espumantes apenas em 1933. Nessa mesma época surgiram várias cooperativas, como a Aurora (Marcus James), Garibaldi e a Riograndense, que pouco a pouco também começaram a fazer espumantes.
Na década de 1940, o francês Georges Aubert fundou com sócios em Garibaldi a Vinícola Georges Aubert, a primeira a produzir espumantes pelo método Charmat.
Jean Pierre Rosier, enólogo e pesquisador da Epagri (Empresa de Pesquisa Agropecuária e Extensão Rural de Santa Catarina), é filho de um dos sócios franceses de Georges Aubert. A ele é dada muita importância pela introdução dos chamados vinhos de altitude em Santa Catarina. Mas isso já é outra história, a ser contada depois.
Um momento importante da vitivinicultura brasileira se deu na década de 1960 com a chegada de grandes empresas multinacionais, como a Martini & Rossi, Cinzano, Moët & Chandon, Maison Forestier (Seagran, Pernod-Ricard), Heublein e Almadén.
A Martini & Rossi já produzia vermute desde 1951 e em 1966 lançou a marca Château Duvalier, o primeiro vinho fino brasileiro.
Vieram também enólogos estrangeiros contratados por essas empresas, muitos dos quais resolveram permanecer no Brasil ao final do trabalho inicial e hoje são referências na técnica de se fazer espumantes.
Um desses enólogos é o argentino Adolfo Lona (Martini & Rossi, atual Bacardi-Martini), que elaborou os conhecidos espumantes De Greville e vinhos de qualidade. “A Martini estava no país com os vermutes desde a década de 1950, mas, quando adquiriu uma propriedade em Garibaldi e resolveu fazer espumantes de qualidade superior, colocou um anúncio num jornal em Mendoza e eu me candidatei. Permaneci na empresa de 1973 até 2004, quando saí para fazer meus próprios espumantes, também em Garibaldi”, conta Lona.

Adolfo Alberto Lona, em sua cantina em Garibaldi

Adolfo Alberto Lona, em sua cantina em Garibaldi

Em 1976, o enólogo chileno Mario Geisse outro nome de peso da vinicultura nacional imigrou do Chile para trabalhar na filial brasileira da casa Moët & Chandon. “Acho que me apaixonei pela região à primeira vista. Os caminhos sinuosos, a tradição italiana e o potencial para fazer grandes espumantes me conquistaram de vez”, conta Geisse. Ao lado de Claudio Catani, que era seu braço direito na Chandon, ele começou a implementar regras tanto no campo quanto na cantina que mudariam a preparação dos espumantes da casa, mesmo que eles seguissem o método Charmat, e não o método tradicional.
Na década de 1990 acontece a abertura econômica do governo Collor e a entrada em grande quantidade de produtos importados. O consumo de vinhos nacionais caiu e as grandes empresas pararam de comprar uvas de seus fornecedores. Muitos deles resolveram fazer seus próprios vinhos, investindo em equipamentos modernos, tecnologia e treinamento de pessoal.
Alguns nomes que surgiram nos anos 1990: Valduga, Miolo, Pizzato, Don Giovanni e Dal Pizzol. Mais recentemente: Casa Pedrucci (de um ex-enólogo da Peterlongo), Estrelas do Brasil, Gran Legado (de um ex-enólogo da Aurora), Domno (da Valduga), Perini (Bacardi-Martini), entre outros. Como se percebe, a vitivinicultura brasileira tem mais de 100 anos, mas grande parte dos rótulos que se encontram nas prateleiras das lojas de vinho hoje surgiu há menos de 25 anos atrás.
Mais e mais viticultores passaram a produzir seus próprios vinhos. Em 1998, a falta de uva fez os produtores de vinhos da Serra Gaúcha a buscar novas áreas para o plantio de vinhedos: Pinheiro Machado, Candiota, Encruzilhada do Sul, Bagé, Dom Pedrito e Caçapava do Sul. As fronteiras do vinho brasileiro se ampliaram além da Serra Gaúcha. No Rio Grande do Sul, surgiram as regiões de Campos de Cima da Serra, Campanha e Serra do Sudeste.
No ano 2000 começaram as importações em grande escala de vinhos do Chile e Argentina. Em 2003, os vinhos vindos do Chile, Argentina e Uruguai já representavam mais de 60% das importações. A fração de mercado dos vinhos brasileiros passou de 36% em 2003 a 21% em 2008. Essa é a situação atual, que favorece muito os vinhos trazidos do Chile e Argentina, principalmente porque acordos comerciais os fazem isentos do imposto de importação.
No mundo todo vem ocorrendo nos últimos anos um continuado crescimento no consumo de espumantes. No Brasil não é diferente. Os bons espumantes brasileiros têm a mesma qualidade dos produzidos em regiões mais tradicionais do mundo. Em degustações às cegas, alguns espumantes do Brasil já foram confundidos até com um Champagne. Os espumantes vão se tornando o vinho do Brasil. É uma bebida que combina com nosso clima tropical, nossa gente alegre e festiva e com nossa culinária.

Em Paris, faça como os franceses, tome um espumante brasileiro

Em Paris, faça como os franceses, tome um espumante brasileiro

Não à toa, vem surgindo com mais frequência notícias como a mostrada na figura acima. Em artigo publicado no jornal Financial Times, a conhecida especialista de vinhos Jancis Robinson escreve que o espumante Miolo Cuvée Tradition Brut (€ 11) é o mais vendido na loja de vinhos Soif d’Ailleurs (sede de aventura, em português) em Paris. Embora essa loja não venda uma única garrafa de vinho francês, não deixa de surpreender que um espumante brasileiro seja seu vinho mais popular. Jancis Robinson acrescenta que esse caviste do bairro de Marais é de longe o mais movimentado entre todos os outros que ela visitou.

[1] O texto foi em boa parte extraído da edição 96 (10/2013) da revista  Adega.

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