GT Moradia

Projeto de moradia se baseia em conceito revolucionário

Vila ConViver, voltada para docentes aposentados ou com mais de 50 anos, foi apresentada pelo GTMoradia/ADunicamp e terá novo encontro no próximo dia 26

 

Mais de 120 professores assistiram, na sexta-feira (07), a primeira apresentação do projeto da Vila ConViver, desenvolvido pelo GTMoradia/ADunicamp e que propõe opções de moradia baseadas no modelo de “comunidades intencionais” para docentes aposentados ou em vias de se aposentar.

Após a apresentação, que foi feita em dois horários diferentes – no início da tarde e à noite – o GTMoradia anunciou um próximo encontro, no próximo dia 26 de abril, na ADunicamp, voltado para aqueles professores com idade superior a 50 anos que queiram integrar o projeto de implantação da Vila ConViver. Essa também será uma oportunidade para aqueles que não puderam estar presentes no Encontro do dia 7 conhecerem mais sobre a proposta.

“Nesse primeiro encontro, apresentamos os resultados dos estudos feitos pelo nosso grupo, com o objetivo de criar opções de moradia para os nossos colegas docentes já aposentados ou em vias de se aposentar. A partir de agora, vamos reunir aqueles professores que realmente têm interesse em buscar uma opção muito melhor de moradia, para darmos andamento à implantação da Vila ConViver”, afirma o professor Bento da Costa Carvalho Junior FEA/DTA – Unicamp, coordenador do GTMoradia.

DOIS ANOS DE ESTUDOS ATÉ CHEGAR AO PROJETO DA VILA
Até chegar à proposta da Vila ConViver , o GTMoradia estudou durante mais de dois anos os modelos de moradia para a terceira idade existentes em vários países e optou por desenvolver o projeto a partir do conceito de cohousing, um sistema de “comunidade intencionais” criado originalmente na Dinamarca, há mais de 40 anos, e que hoje se espalha por diversos países e abriga moradores de diferentes perfis sociais, culturais e econômicos.

Logo no começo do encontro, que ocorreu no auditório da ADunicamp, o professor Bento lembrou que a decisão de iniciar os estudos partiu de demandas colocadas por um grupo de professores aposentados. Há dois anos, foram feitas diversas reuniões para discutir demandas e propostas dos associados e, entre os aposentados, uma das propostas recorrentes era a de construção de moradias apropriadas à terceira idade.

“Obviamente, construir moradias está fora da alçada da ADunicamp, mas decidimos criar um grupo de estudos, para encontrar soluções que atendessem a essa demanda”, relatou. “E quando começamos ninguém tinha a menor ideia de onde iríamos chegar”.

Como a demanda por opções de moradia partira de professores aposentados, o GTMoradia centrou fogo, inicialmente, em estudos sobre os modelos hoje existentes de conjuntos residenciais ou de instituições de acolhimento e atendimento de idosos.

Os modelos que viram, no entanto, não ofereciam alternativas que fossem além das opções um pouco mais adaptadas dos condomínios tradicionais. Mas, quando começaram a estudar os modelos de “comunidades intencionais”, os integrantes do GTMoradia descobriram um caminho que os surpreendeu.

As “comunidades intencionais” tem uma longa história em diversos países – desde os kibutzim em Israel, até as comunidades originadas do movimento hippie na década de 1960 – mas ganharam força a partir do desenvolvimento do conceito de cohousing (collaborative housing), que surgiu na Dinamarca, um pouco mais tarde.

“E descobrimos cohousing é um modelo válido para qualquer idade e que senior cohousing é magnífica não só para as pessoas da terceira idade, mas para os que têm mais de 50 anos”, diz Bento. A partir daí, o GTMoradia debruçou-se no estudo detalhado das experiências com cohousing em diversos países.

50 FAMÍLIAS. EXPERIÊNCIA CONQUISTA A DINAMARCA
Uma das primeiras experiências de cohousing na Dinamarca, estudada pelo GTMoradia, revela a abrangência e as profundas implicações deste modelo de moradia.

“Um dos melhores exemplos é o de uma cohousing formada na Dinamarca por um grupo de 50 famílias, 50 casais, que trabalhavam num estaleiro no norte daquele país. E eles tinham filhos pequenos, uma vida muito corrida, trabalhando em turnos. E as mulheres também trabalhavam. E aí eles precisavam de uma alternativa, como fazer para pegar os filhos na escola, a questão da alimentação. Então descobriram que poderiam montar um condomínio, onde cada um teria sua residência, mas que teriam espaços comuns, como refeitório, lavanderia”, relatou Bento.

Os moradores dessa primeira cohousing descobriram muito rapidamente que essa alternativa eliminava problemas enormes, desde a questão de cozinhar, fazer compras, limpar a cozinha, até a assistência com os filhos. E o sucesso foi tão grande que hoje existem mais de 200 cohousing na Dinamarca.

A partir dessa experiência bem sucedida, um grupo de idosos, de moradores daquele conjunto residencial que foram ficando mais velhos, decidiu criar um conjunto residencial só para idosos. “Mas esses conjuntos residenciais são muito diferentes dos condomínios que temos por aqui. A gente chama de ‘comunidade residencial intencional’, ou simplesmente cohousing”, apontou Bento.

UMA REVOLUÇÃO DA MORADIA PARA O SÉCULO XXI
De acordo com o professor Bento, esse modelo de moradia é apontado hoje como uma “opção de excelência para o século XXI, uma verdadeira revolução no conceito de moradia”.

“A implantação de uma cohousing começa, da forma como eu relatei, de forma simples com um grupo de pessoas. Com um grupo de pessoas como nós, que estamos reunidos aqui agora, buscando novas opções de moradia. Mas logo nós vemos que ela traz benefícios adicionais incríveis, principalmente para moradores da terceira idade”, relatou.

Os benefícios são tão evidentes, segundo Bento, que o desenvolvimento das experiências de cohousing logo despertaram a atenção do governo da Dinamarca e, em seguida, de governos dos outros países nórdicos. “No caso de cohousing para a terceira idade, o que se via é que os moradores dali precisavam menos de cuidados médicos e de medicamentos. Viviam mais, com mais qualidade de vida e davam muito menos despesas para os sistemas de saúde do que aquelas que moravam sozinhas”. Assim, o modelo foi rapidamente apoiado pelos governos, que passaram a incentivar e financiar a criação de novas cohousing.

E hoje, lembra Bento, em todas as discussões e programas de projetos de moradia dos países mais desenvolvidos, em especial na Europa, as autoridades reafirmam que esse é um modelo que “não pode mais ser ignorado”.

COUHOUSING E A REVOLUÇÃO DA LONGEVIDADE
O trabalho desenvolvido pelo GTMoradia e apresentado pelo professor Bento no encontro na ADunicamp mostrou que há uma profunda mudança em curso no perfil das populações mundiais que envelhecem rapidamente e de forma especial no Brasil. Essa mudança é chamada Revolução da Longevidade e exige novas formas de organização da economia e da convivência, incluindo aí os modelos de moradia.

O professor Bento lembrou que três grandes problemas da população idosa, apontados nas modernas pesquisas de gerontologia, estão diretamente ligados ao modelo de moradia: a solidão, o sentimento de desamparo e o tédio.

“E a cohousing é, comprovadamente, uma maravilha para resolver esses problemas”, afirmou.

Até porque, lembrou Bento, uma importante mudança verificada na Revolução da Longevidade em curso é o tempo muito mais longo de vida ativa dos idosos, que “ainda têm muita vida a contribuir com a sociedade”. Ao mesmo tempo, com o aumento da mobilidade, é cada vez mais frequente o número de idosos ou de casais de idosos que vivem longe dos filhos.

“Antigamente os filhos estavam por perto, hoje não. Estatísticas de vários países mostram que 70% das mulheres com idade mais avançada, nos próximos anos, vão viver sozinhas. A comunidade é muito maior que a família e é lá que está resposta”, afirmou.

RESPOSTA DO SÉCULO XXI À MUDANÇA NA VIDA DO IDOSO
Pesquisas recentes apontam que os idosos modernos, de diferentes países, têm pelo menos quatro pontos comuns muito fortes no que se refere à questão da moradia:
– Querem continuar morando em suas casas até o final da vida.
– Não querem se mudar para a casa dos filhos.
– Não querem ser colocados em instituições para idosos.
– Querem manter sua autonomia e independência.

“Uma análise mais detalhada mostra: eu quero continuar morando em minha casa até o final da minha vida, mas essa não é necessariamente a casa na qual eu moro hoje. É comum a seguinte avaliação: continuar morando na casa que eu moro até hoje não é a melhor opção, aliás, é uma péssima opção. À medida que a gente vai envelhecendo, aquela casa fica grande demais, perigosa demais e mais dispendiosa do que deveria”, ponderou. Afinal, as casas onde a maioria dos idosos mora hoje foram construídas para outra época, a da criação e convivência com os filhos.

E as opções de moradia apresentadas hoje no Brasil, baseadas nos condomínios residenciais tradicionais, seguem o modelo norte-americano que valoriza principalmente a privacidade. “Um modelo que não resolve o problema do isolamento social que se inicia após a aposentadoria e se agrava de maneira exponencial na velhice”, afirmou.

Bento apresentou o relatório de um grupo de pesquisas montado recentemente nos Estados Unidos para avaliar a questão da moradia para idosos e que descobriu que 99% das residências hoje existentes lá não são adequadas para moradores da terceira idade. “Então esse não é um problema brasileiro. É um problema mundial”.

E os condomínios construídos a partir do modelo de cohousing oferecem soluções claras para todas essas questões. Por isso, de acordo com todos os estudiosos consultados pelos integrantes do GTMoradia, o conceito de cohousing é um conceito realmente revolucionário para a moradia, em especial do idoso, no século XXI. “Mais do que isso, é uma resposta do século XXI à mudança no ciclo de vida dos idosos”, avaliou Bento.

VIDA INDEPENDENTE E SOLIDÁRIA NA PRÓPRIA CASA
O conceito de cohousing estabelece, desde o início, a participação dos moradores na idealização de todo o projeto. As residências e todos os espaços do condomínio devem ser construídos de forma a atender às necessidades e anseios de todos aqueles que vão viver ali. As residências são projetadas e dispostas no terreno de maneira a favorecer a interação social entre os moradores.

Bento lembrou que, hoje, a cohousing é desenvolvida a partir de um amplo projeto de engenharia social que se baseia na antropologia, na sociologia, na gerontologia e na arquitetura social, com o objetivo de atender pelo menos cinco pontos essenciais da vida e das necessidades dos idosos contemporâneos:
– Interação social.
– Participação.
– Solidariedade e apoio mútuo.
– Cidadania ativa.
– Sustentabilidade e respeito ao meio ambiente.

“Uma coisa diferente de qualquer condomínio que existe hoje é que você participa de todo o projeto, desde a construção à administração, incluindo tudo o que se refere ao dia a dia: desde quantos jantares a gente vai fazer para todo mundo por semana, até quantos eventos sociais vamos promover. Vamos passar filmes? Vamos nos reunir para quê?”, relatou.

A CASA, A VIZINHANÇA E A VIDA. TUDO FAZ A DIFERENÇA NA COHOUSING
“As casas de cohousing são ambientes privados, muito mais compactas do que as que a gente vive hoje, mas com toda a concepção voltada para o perfil dos moradores e para incentivar a integração com o ambiente social. Mas temos, depois, toda uma série de áreas comuns, cujo objetivo é justamente o de incentivar a interação, o apoio mútuo, a confiança mútua”, relatou Bento no encontro do dia 7 de abril.

Alguns pontos fundamentais no conceito cohousing
– As residências privadas são construídas de modo a garantir toda a privacidade. Elas são compactas, mas com dependências amplas. Normalmente têm entre 90m² e 110m², com um ou dois quartos.
– Os moradores participam de todo o processo: como vão ser as residências, o quanto elas têm de área, como vão estar dispostas no terreno. A forma, o número de quartos e até o tamanho das janelas, tudo é decidido em comum.
– Como as casas são compactas, devem ser projetadas de forma a dar uma sensação de amplitude, com o layout aberto, sem muitas paredes divisórias; e valorizando varandas com amplas janelas e portas de vidro que se abrem para os jardins, gramados e espaços comuns.
– O projeto deliberado de vizinhança propõe a criação intencional de uma vizinhança solidária, com objetivos comuns. Por isso, as áreas externas, comuns e de convivência são amplamente valorizadas, com espaços onde as pessoas podem se encontrar, conversar.

Dependências comuns, uma extensão das casas
– Na cohousing, as dependências comuns são verdadeiras extensões das residências individuais.
– Todas elas têm uma casa de propriedade de toda a comunidade, conhecida como Casa Comum, com ambientes amplos, cozinha, refeitório, salões.
– As cozinhas podem atender, diariamente, a toda a comunidade. Em diversas cohousing, nos EUA e Europa, duas ou três pessoas cozinham por dia para toda a comunidade, quase sempre em sistema de revezamento.
Graças a isso, as cozinhas podem ter equipamentos comerciais de alto padrão (lava-louça, fogão, etc).
– As lavanderias comuns também podem atender a toda a comunidade, com equipamentos industriais de alto desempenho.
– Os refeitórios são espaços comuns que podem ser utilizados para reuniões, encontros e palestras.
– Muitas cohousing mantêm uma grande sala de atividades, onde os integrantes podem fazer pilates, exercícios físicos ou oficinas de pintura, porcelana e outras atividades manuais.
– Algumas têm também sala de leituras, hobbies, jogos.

O quarto de hóspedes. Uma alternativa inteligente
– Outra grande alternativa encontrada por algumas cohousing foi o quarto para visitantes. Como muitos moradores tinham aquela questão do filho que vem passar apenas uns dias durante o ano, ou de amigos ou parentes que visitam eventualmente, foi decidida a construção de apartamentos para hóspedes na Casa Comum. Assim, os moradores não precisavam manter um quarto a mais em suas residências, apenas para receber visitantes eventuais.

– Hoje, muitas cohousing mantêm mais de um quarto para visitantes e esses quartos são utilizados, quando não estão sendo ocupados, para uma outra finalidade. Eles são alugados para, por exemplo, profissionais que estão fazendo uma pós-graduação em fisioterapia, ou uma especialização em educação física para terceira idade. E o aluguel é pago com algum tipo de prestação de serviços para a comunidade.

Acesse aqui e leia a versão PDF do Boletim

One Comment

  1. Pingback: GTMoradia realiza penúltimo encontro de apresentação do projeto Vila ConViver

Leave a Reply

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

*