GT Moradia

Vila Conviver propõe novo olhar sobre as formas de habitar a cidade, avalia arquiteto e urbanista

Para o arquiteto e urbanista Evandro Ziggiatti Monteiro (1), coordenador do curso de graduação em arquitetura e urbanismo da FEC/Unicamp, a proposta da Vila ConViver, desenvolvida pelo GTMoradia/ADunicamp com base no conceito de cohousing, abre espaço para importantes reflexões sobre os padrões de moradia e convivência que estão estabelecidos hoje nos centros urbanos.

De acordo com ele, os atuais padrões de moradia – que “transformaram as residências em mercadorias” – deixam de lado importantes necessidades humanas e dão uma orientação, muitas vezes equivocada, ao modelo de convivência nas cidades.

“Na ideia do GTMoradia/Adunicamp o interessante é que isso tudo tem sido repensado, discutido. Então volta o debate: o que eu preciso de espaço para viver quando for velho? Aquela casa que eu comprei num padrão e que o arquiteto criou também num padrão será que é o que ainda me serve? Que tipo de padrão é esse? Que tipo de padrão e que lugar da cidade me interessa?”, aponta ele.

Evandro, que entre inúmeras outras obras assina o projeto do prédio onde está instalada a sede da ADunicamp, adiantou que vai atuar como consultor no projeto da Vila ConViver. “Vamos dar uma consultoria, mas acho importante que tenhamos também um grupo de arquitetos que possa auxiliar diretamente na execução do projeto, pois ele abre uma reflexão para todos nós aqui da Arquitetura e Urbanismo da Unicamp”, avaliou.

 

evandroLeia abaixo a entrevista do professor Evandro Ziggiati ao site Longevidade ADunicamp (www.longevidadeadunicamp.org.br)

 

Longevidade ADunicamp – Do ponto de vista da arquitetura, como você vê o conceito de cohousing?

Tem dois aspectos que considero muito interessantes na proposta da cohousing do GTMoradia da ADunicamp. O primeiro é essa primeira definição do projeto de que trata-se de um empreendimento voltado para a terceira idade. A terceira idade não é um segmento específico da população, tipo “mulheres e homens”, “mães com filhos”, etc.; na verdade é uma situação de vida pela qual todos nós vamos passar. E, na arquitetura, ainda existe um campo muito grande para ser explorado sobre esse tema, desde como desenhar esse projeto e suas potencialidades. Porque, normalmente, na arquitetura hoje as coisas não são feitas assim. A gente tem, na arquitetura, uma área que se preocupa com acessibilidade, por exemplo, ou com questões correlatas à moradia para a velhice. Mas a gente não tem algo que poderia ser chamado de gerontoarquitetura, alguma coisa assim. A gente tem profissionais que se preocupam com questões específicas desse segmento… mas apenas isso. Então, quando a ADunicamp começou a pensar nessa coisa da cohousing para a terceira idade, nós vimos que esse é um desafio também aqui, para a Escola de Arquitetura. Embora a gente tenha alguns docentes com trabalhos isolados na área, a gente não tem isso assim como uma coisa contínua, que sempre está fazendo pesquisa. Esse é o primeiro aspecto.

Agora o segundo aspecto vem de uma coisa com a qual a gente trabalha muito, mas esse nosso trabalho é um pouco ingrato, pois a gente  vê que ele está relacionado com a questão do modelo de moradia que a gente tem hoje como opção para a sociedade como um todo. E qual a opção que a gente tem hoje: é condomínio fechado? Então a gente tem casa padrão, casa padrão para rico, casa padrão para pobre. Então a gente transformou a casa em uma mercadoria e deixou de pensar no que é este espaço, que na verdade é o nicho ecológico do ser humano, que tem tudo a ver com as nossas necessidades.

 

E os efeitos disso no modelo de moradia que temos hoje?

É o pior dos mundos que a moradia, o nicho ecológico do ser humano, tenha se transformado em uma mercadoria. E, na arquitetura, a gente sempre tem esse debate. Transformar a casa em uma mercadoria, depois o bairro em uma mercadoria e até a cidade. Então esses conceitos fundamentais viram padrões que a gente repete e, de certa maneira, a gente para até de refletir sobre esses padrões. Então você tem um padrão: a casa tem que ter um jardim na frente, um quintal no fundo, tem que ser individual, tem que ter um muro… Então a gente tem um monte de padrões.

 

E como o conceito de cohousing interfere neste modelo padrão?

Nessa ideia do GTMoradia da Adunicamp o interessante é que isso tudo tem sido repensado, discutido. Então volta o debate: o que eu preciso de espaço para viver quando for velho? Aquela casa que eu comprei num padrão e que o arquiteto criou também num padrão e que tem três suítes – ou se sou uma pessoa mais pobre tenho dois dormitórios – será que é o que ainda me serve? , que tipo de padrão é esse? Que tipo de padrão e que lugar da cidade me interessa? Que essa também é uma outra discussão que tem que ser colocada no cohousing: esse espaço com várias moradias em que ponto da cidade interessa mais ao grupo que vai para lá? Afastado ou não? Em qual bairro? Então passa por um monte de discussões sobre coisas que hoje a gente aceita assim muito diretamente, sem questionar ou discutir.

 

O conceito de cohousing  rediscute então, inclusive do ponto de vista arquitetônico, o modelo de moradia que temos hoje como padrão?

Sim, e mais do que isso: rediscute o modelo urbanístico também. Não sei se já chegamos nisso, mas é uma coisa que certamente a gente vai esbarrar ali na frente. Porque o grupo que vai construir uma cohousing vai pensar nisso, pensar nesse habitat, o que é essa unidade de moradia, o que precisa ter, o que pode ser coletivizado, o que não pode. E isso é pensando na cohousing em si. Mas, em seguida, essa cohousing vai ter que ter que ter inter-relações. Nós, os idosos que habitamos essa cohousing, não vamos ficar restritos a esse espaço; a gente vai querer ir ao supermercado, à padaria, assistir a alguma peça de teatro. Enfim, como esse ambiente vai se correlacionar com a cidade. Então a gente cai de novo na questão do carro, que é o grande vilão da sustentabilidade no planeta, e a gente tem que pensar que nem todos nós, ao habitarmos o cohousing, vamos pensar que teremos que usar veículos próprios. Pode ser até que alguns tenham certas limitações. Então como vai funcionar? A gente vai ficar na dependência do carro ou a cohousing vai ficar perto de uma avenida que tenha ponto de ônibus, ou num bairro que tenha um pequeno núcleo comercial, que tenha uma padaria, um supermercado. Então essas questões também vão aparecer e é muito bom que apareçam.

 

E hoje o morador, o comprador de um imóvel, não tem muita opção de escolha, não é?

Não tem. Nós temos problemas na sociedade que geram problemas de violência. Problemas que geram outros padrões de pensar. A gente tem dificuldades em pensar na casa do bairro, porque agora as pessoas têm medo, principalmente nas grandes cidades, e a casa do bairro para de ser uma opção, passa a ser uma opção só para alugar para comércio. A sociedade hoje fez essa opção pelo condomínio fechado e o condomínio fechado tem o padrão totalmente dependente do automóvel. Então tem um monte de questões nas quais a cohousing mexe e que nos leva a não só pensar na cohousing, mas também em como vai ser a inserção dela na vida urbana de uma cidade como Campinas. E isso passa a ser relevante.

 

Por favor, fale um pouco mais sobre isso…

Por exemplo, muitos de nós sequer pensamos em como, na terceira idade, será o espaço no qual vamos morar. Eu, por exemplo, sou mais pelo lado bucólico. Mas vai ter morador que gostaria dessa vida em comunidade mas que iria preferir que fosse no Taquaral, por exemplo, ou algum outro bairro próximo do centro, com muitos equipamentos urbanos. Pode-se pegar, por exemplo, uma rua sem saída do Taquaral, conseguir lá três ou quatro lotes juntos e assim cria-se um espaço comunitário, mas de onde o morador consiga caminhas, por exemplo, até a banca de jornal, a padaria. Então, questões como essa podem dar origem, no futuro, a dois, três cohousing, a partir desse projeto que o GTMoradia está apresentando: uma mais no estilo urbano, outra mais no estilo bucólico, e assim por diante.

 

E qual o apoio que a arquitetura pode dar ao empreendimento e em que momento esse conhecimento deve ser integrado ao projeto?

A gente fica muito feliz de já estar sendo consultado. Porque existem muitos estudos na arquitetura sobre como questões espaciais ajudam em questões como privacidade, coletividade. Então, realmente, o desenho do espaço é muito importante quando você quer responder várias das questões que estão colocadas já neste momento do empreendimento. Esse grupo que vai viver em cohousing vai querer, por exemplo, privacidade para ter o seu bichinho de estimação? Então você precisa pensar cada unidade de maneira que permita um quintalzinho, que possa ter um animal, e assim por diante e todas as outras questões aparentemente mais elementares.

 

A ideia da cohouse  é que se tenha, realmente, espaços de privacidade e áreas comuns, não é?

Sim, mas a calibração disso é muito difícil. Ela vai depender de todas essas questões, que envolvem também questões culturais. Se você for ver, por exemplo, nos países nórdicos as áreas comuns seriam muito grandes, com muitas coisas para fazer, e a área interna seria pequena. E pode ser que para o brasileiro seja diferente. Não precise tanto das áreas comuns, mas de um espaço privativo um pouco maior. Normalmente, quando eu penso no conceito de cohousing, para mim vem uma configuração que tem muito mais a ver com o modelo indiano, que é a ideia de um pátio central, com as moradias todas ao redor. Na Índia isso é muito comum. As cidades são estruturadas assim.

 

No Brasil temos os exemplos clássicos dos arraiais, como aquele ícone da praça central de Arraial da Ajuda, que segue um pouco o modelo das casas que ilustram o nosso cartaz do GTMoradia (2), não é?

Sim, mas isso é muito mais brasileiro, é mais linear. No caso das configurações indianas o desenho é mais como uma aldeia indígena. Tem um núcleo central, circular, e todas as casas se abrem para esse núcleo central, onde ocorre muita interação social. Essa uma figuração das cidades indianas. Até nas favelas indianas, na borda das grandes cidades, a maneira como as casas começam a se organizar é assim. E nas cidades pequenas também. Então esse é um conceito que hoje inspira também os desenhos urbanos mais contemporâneos na Índia, que é essa configuração de pátios e as unidades habitacionais como alvéolos. E a nossa configuração brasileira já tem uma coisa assim de uma certa linearidade: ela tem a frente, mas essa frente filtra um pouco daquilo que você vai ter na privacidade. Então, para definir esses gradientes de privacidade, de comunidade, talvez a gente vá ter que trabalhar muito com maquete na hora em que estivermos fazendo o projeto. Para que o grupo possa entender bem até onde quer chegar, espaços mais coletivos, mais transparentes e espaços mais reservados.

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(1) Evandro Ziggiatti Monteiro é arquiteto, urbanista, professor e pesquisador da Unicamp. Antes de iniciar sua carreira acadêmica, trabalhou como arquiteto supervisor da Coordenadoria de Projetos da Faculdade de Engenharia Civil, Arquitetura e Urbanismo, entre 1994 e 2004, sendo responsável por uma grande quantidade de novos edifícios institucionais, remodelações e anexos de unidades de ensino e pesquisa no campus da Unicamp, bem como projetos para municípios e outras instituições. Sua experiência de ensino veio durante os anos seguintes, junto com a pesquisa e o envolvimento em projetos centrados na melhoria da qualidade espacial e da paisagem de bairros de autoconstrução, culminando com sua tese de doutorado. Concentrando-se em métodos participativos e de visualização, sua tese explorava abordagens inovadoras para subsidiar o planejamento e o desenho urbano na busca de formas urbanas mais sustentáveis. A obra inspirou o seu primeiro livro, publicado em 2012. Sua principal linha de pesquisa é baseada em estudos de morfologia urbana dos tecidos existentes, sua evolução, bem como os resultantes conflitos e impactos na paisagem urbana, especialmente na cidade de Campinas. Desde 2010, é vice-coordenador do Laboratório Fluxus de Redes Técnicas e Sustentabilidade Socioambiental. Atualmente (2013-) é o coordenador do curso de graduação em arquitetura e urbanismo da FEC/Unicamp, representando-o em vários conselhos e instituições. (Fonte: Currículo Lattes)

 

(2) A pintura que ilustra o cartaz de apresentação da Vila ConViver é um fragmento da obra “A Vila”, da artista plástica Eliete Tordin, e foi uma das obras apresentadas na sua exposição “Arte Naif – Brasil em Cores”, no Espaço de Arte da FCA (Faculdade de Ciências Aplicadas da Unicamp),em novembro de 2013,  em Limeira. Eliete Tordin nasceu e sempre viveu na cidade de Valinhos. Com formação autodidata, Eliete possui uma técnica incrível para a elaboração de sua obra, definida como arte naif.

 

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