GT Moradia

 Gerontologia moderna aponta grandes benefícios da vida em cohousing

anita

A professora Anita Liberalesso Neri (*), da Faculdade de Educação da Unicamp, é uma das referências brasileiras em pesquisas no campo da Psicologia do Envelhecimento e da Gerontologia. Com base nos modernos conceitos de gerontologia, ela vê nas cohousing uma das grandes alternativas de moradia para as novas gerações de idosos que estão se formando no Brasil. Mas adverte: “Neste momento, elas ainda são dirigidas a um público diferenciado e é indispensável que os interessados conheçam bem as vantagens e as implicações do conceito de cohousing para um envelhecimento saudável antes de se definirem a viver em uma delas”.  Ela diz que vê com “grande entusiasmo” o projeto da Vila ConViver, que o GTMoradia vai apresentar aos associados da ADunicamp no próximo dia 7 de abril (saiba mais aqui).

Nesta entrevista exclusiva que concedeu ao site Longevidade ADunicamp (www.longevidadeadunicamp.org.br) e ao GTMoradia ela fala um pouco sobre o perfil e as necessidades da população idosa hoje no Brasil e aponta as vantagens que vê no sistema de moradia proposto pelas cohousing voltadas para a terceira idade.

Longevidade ADunicamp – Professora, antes de entrarmos especificamente na questão da cohousing, fale um pouco para nós sobre o perfil atual, na questão de moradia, da população idosa no Brasil.   

Anita Liberalesso Neri – Bom, partindo do nosso foco no projeto de cohousing estamos falamos de uma população idosa em especial, que tem condições de saúde e recursos financeiros. Falamos também de idosos e casais de idosos que vivem sós. Há alguns perfis que mudam de uma região para outra. O Rio Grande do Sul, por exemplo, é o Estado com o maior número de casais, casais conjugais idosos vivendo juntos. Então um ajuda o outro. É claro que os dois têm que ter condições financeiras e funcionais para poder se bancar. Então, entre os casais, quase sempre se chega a um ponto em que geralmente é a mulher que cuida do marido – isso porque a mulher é a cuidadora, tem essa representação de um papel social. Mas a gente já começa também a encontrar maridos cuidando das esposas, essa é uma realidade crescente. Pois bem, no Rio Grande do Sul temos uma taxa de 50% de idosos que são casais conjugais. Em outras regiões, como a nossa, que são regiões também abastadas, você encontra taxas semelhantes ou muito próximas. De um modo geral, nas regiões com melhores recursos, as taxas giram em torno de 40% de casais conjugais de idosos.

E a questão do idoso em situação de abandono?

A questão do idoso abandonado é outra história! Uma demanda séria para os serviços sociais. E uma situação ruim, também muito encontrada no país, é a do velho que vive sozinho sem condições materiais. Ou dos idosos que vivem com filhos, em condição de pobreza. Às vezes mora uma porção de gente junto, por uma questão de estratégia de sobrevivência. Moram todos sob o mesmo teto e, em muitos casos, tem aquele idoso que é o chefe da família, que tem aposentadoria e esse é o único dinheiro certo que entra na casa. Essa é uma outra faceta da velhice mais pobre, menos privilegiada, que vemos no Brasil inteiro, mas principalmente nos lugares mais pobres, nas franjas das grandes cidades, em muitas regiões do país.

Mas, voltando….   

Sim, voltando ao caso de que estamos tratando, o comum é que esses casais que vivem juntos a determinada altura precisem de ajuda externa. Aí, quando um morre, o outro de repente vai ter que ir para a casa de um filho ou de uma filha. É uma situação difícil: faz 40 anos que não mora mais com ninguém, só com o marido ou a mulher, e tem que voltar para a casa dos filhos. Então essa é a hora que é importante pensar no conceito da cohousing, pensar em lugar onde a pessoa envelheça bem, e envelheça bem no lugar onde sempre esteve. É bom lembrar que – como já mostra largamente a literatura sobre o tema – os amigos de livre escolha são bem mais eficazes para a saúde psicológica e mesmo para a saúde física do idoso do que relações obrigatórias, como as relações familiares. O idoso reduz a rede de relações, mas ele as seleciona. Porque essa rede tem que cumprir objetivos sócio-emocionais, e não mais objetivos como os de afirmação, de status, de busca de informações. O idoso já não precisa disso: que a minha mulher é mais bonita, que o meu carro é do ano e o seu não, que o meu filho entrou na universidade tal. O idoso não precisa mais. Ele pode fazer outras escolhas. E essa seletividade sócio-emocional é um fato, demonstrado de maneira bastante interessante em muitas pesquisas.

Recentemente, uma pesquisa feita nos Estados Unidos com moradores de uma cohousing para terceira idade mostrou os benefícios para a saúde que esse modelo de vida pode proporcionar. As condições de saúde de um grupo de idosos foi avaliada detalhadamente no momento em que eles começaram a viver na cohousing. Dez anos depois, estes mesmo idosos foram reavaliados e, em termos de saúde, estavam melhor do que estavam quando entraram.

Na verdade, esse é um assunto também já muito pesquisado e analisado. Essa questão do relacionamento, do apoio emocional, tem um efeito protetor para a saúde. É como uma almofada, um amortecedor que se interpõem entre os riscos, as perdas, as agressões e os consequentes danos para a saúde.

Nessa área do relacionamento, da saúde emocional, quais são os problemas mais frequentes e graves encontrados nas populações idosas?

Quando você pensa em pessoas de 70 anos, são pessoas que estão melhor consigo mesmas, do ponto de vista psicológico, do que no início da velhice. Porque elas já fizeram os ajustes necessários. Quando você está no começo da velhice muita coisa é competitiva, você ainda não assumiu uma identidade de idoso. Você tem uma identidade de adulto. Você é mãe, pai, profissional, é muito ativo, você faz uma porção de coisas. Mas de repente começa a faltar perna. Você começa, por exemplo, a ter medo de andar na cidade, de ser assaltado, de quebrar o pé ou o joelho, de ser empurrado e se acidentar. Você começa a ficar com medo de sair de carro à noite, porque você começa a perceber que a sua acuidade já não é como era antigamente, você se cansa com mais facilidade. Mas também não quer admitir, porque o retorno da participação em atividades com a família, com os amigos, ainda é bom, ainda é valorizado. De modo que no começo da velhice vamos fazendo as adaptações necessárias. E aí vemos os conflitos, que aqueles com mais de 70 anos já superaram.

Por favor, fale mais sobre essa situação emocional dos idosos acima de 70 anos.

Vamos considerar que tudo está bem, em termos de saúde física, cognitiva. E quando eu digo saúde física não falo em ausência de doença, pois isso praticamente não existe. A pessoa pode ter alguns problemas, pode ter hipertensão, mas controlada; diabetes, mas controlada. Tem dores lombares controladas, então faz exercícios, faz musculação, e assim por diante. Então, quando você tem um parceiro, com quem construiu uma história boa, de amizade – não sem conflito, porque isso também não existe – você tem com quem trocar experiências, tem uma intimidade psicológica e física, que é muito importante. Você tem com quem trocar informação, você brinca: “E aquela sua dor?”. Um caçoa do outro, e aí você vai tocando a vida. Já não existe aquela cobrança, desde que a pessoa assuma a identidade de idoso, assuma as suas limitações e aprenda a tirar partido. Porque algumas limitações são ótimas: “Não vou a tal lugar, em tal reunião, é muito barulho, é muita gente e eu não aguento mais isso”. Minha avó falava para os filhos e netos: “Venham aqui, mas não venha todo mundo junto” (risos). Então a gente aprende a lidar com essas coisas e aí você tem uma chance de viver bem com a sua velhice. Isso te dá a possibilidade de fazer investimentos em domínios selecionados. Você não precisa inventar de criar coelho, fazer plantação. Costumam dizer para os idosos: você tem que sair, ir dançar. Mas não tem que nada! Você faz aquilo que quer fazer. Você escolhe – feliz é quem pode escolher, não é? A pessoa tem que fazer aquilo com o que se sente bem: investir na espiritualidade, resgatar algum talento, cultivar amizades, novos relacionamentos. Porque, infelizmente, a gente passa muito tempo na vida sem tempo, sem condições de cultivar alguns hábitos. As pessoas, na medida em que envelhecem e realizam essa passagem, conquistam uma nova identidade. Se sentem no direito de fazer escolhas, selecionar coisas que lhe fazem bem. E podem deixar o resto de lado. Fazem investimentos na saúde, no autocuidado, na alimentação, cultivam a espiritualidade. Essas pessoas tendem a viver a velhice muito bem.

Dentro deste quadro, como você vê o papel que pode representar para o idoso essa forma de convivência proposta pela cohousing?

Primeiro, temos que ver que este modelo não é para qualquer idoso. É para um idoso diferenciado. De repente entram nele alguns iludidos, imaginando que terão aí a solução de todos os problemas, tudo resolvido sem esforço – como uma volta a adolescência. E não é nada disso. Acredito mais naqueles que, perfeitamente conscientes do conceito da cohousing, fazem essa opção. Acredito que é importante deixar claro que se for uma pessoa extremamente individualista, extremamente competitiva, esse não é o lugar para ela viver – ou ela vai descobrir isso depois que for (risos). Mas o ideal é que a pessoa vá porque realmente quer um lugar como esse, um espaço com uma gestão democrática, compartilhada. Tem que ser uma livre escolha de cada um.

E quais os caminhos que você apontaria para os que pensam em fazer essa opção?

Por exemplo: veja que em muitos casos – falando deste segmento de idosos ou futuros idosos professores da Unicamp – os filhos têm que estar de acordo. Porque existe muito, neste nível social, aquela situação da casa da avó, do avô ser uma referência. Os filhos moram em casas menores, estão ainda em plena luta da vida adulta. Então a casa dos avôs é onde tem a piscina, onde os filhos se reúnem, onde acontece a festa do aniversário do filho, do neto. Então, nestes casos, todos têm que estar de acordo, saber que é um estilo de vida diferente, um estilo de vida compartilhada. O casal, o idoso que vai morar lá também não pode querer ficar colocando muros e cercas altas nas casas. Não pode ser daquele estilo: “Este grupo não sei o quê! Este grupo tem muita gentinha (risos)”! Porque isso a gente escuta nos nossos condomínios, não é: “Porque fulano é isso, sicrano aquilo”. O pessoal da Unicamp já é, em princípio, um pessoal diferenciado. Diferenciado economicamente, mas só isso não é suficiente. É preciso que sejam diferenciados, mas que combinem em termos dos valores básicos e que as discordâncias não sejam tão graves, rigorosas e profundas que impeçam a convivência. Então a pessoa tem que ser capaz conversar, de negociar, de conviver com a diferença. Ou ela tem esses atributos ou vai ter que desenvolver eles para viver numa cohousing. A pessoa tem que saber que ela não vai ali para morar em um condomínio de velhinhos. Não é este o conceito.

E para as pessoas que têm esse perfil, quais os outros benefícios que uma cohousing para a terceira idade pode agregar na vida delas?

Eu vejo que um ambiente externo, um ambiente protegido, um ambiente saudável, um ambiente preservado, um ambiente seguro é essencial para o qualquer pessoa e, em especial, para o idoso – e este é um lado importante da questão. Mas você também pode obter parte disso em outros condomínios, não é verdade? E vejo também que, antes de qualquer questão de convivência, a possibilidade das pessoas envelhecerem em seus espaços também é fundamental. Você não vai pra uma instituição, você não precisa ir para uma instituição. Você não precisa coresidir com os filhos, não precisa coresidir com amigos. Você continua no seu espaço, sobre o qual você tem domínio, você é quem decide. Mas o conceito da cohousing vai um pouco além, pois propõe que, no momento em que você precisa, também pode contar com serviços de apoio, pois existe uma comunidade de apoio. É claro, não vai ter um hospital neste local, mas terá um espaço, por exemplo, para exercícios funcionais, piscina aquecida para fazer exercícios que são úteis para essa faixa de idade. Não vai ter um ambulatório, mas pode ter alguém que possa auxiliar na medicação, por exemplo, nos cuidados básicos; ou alguém de fora que possa ser acionado para uma assistência domiciliar, como fisioterapia e por aí adiante.

Como conceito, uma cohousing para a terceira idade poderia ser importante, nessa questão de apoio à saúde, apenas nos cuidados bem básicos, não é?

Aqui no Brasil, infelizmente, pessoas que têm doenças terminais ou que ficam totalmente dependentes na velhice não têm para onde ir. Se vocês olharem as chamada “instituições de longa permanência” vão entender o que estou falando. Eu tenho um amigo geriatra que diz o seguinte: “Se você for olhar a regra do governo ou das instituições, você vai ver que só entram lá dois tipos de idosos – os azuis e os astronautas (risos)”. Porque eles só querem idosos saudáveis, pois dizem que não são instituições de cuidados médicos. Então tem muita hipocrisia, não há espaço para os idosos com doenças terminais ou que estão dependentes. Em que país do mundo “asilo” chama-se “instituição de longa permanência”? Por acaso temos instituições de “curta permanência” para idosos? Aí não poderia chamar Lar ou Casa de Repouso. Mas também não poderia chamar de “cantinho do céu”, “porta para o paraíso”, “boa passagem”, “final feliz” (risos). Então, tem muita hipocrisia. Muitos idosos precisam ter um local para cuidados paliativos. E também hospitais de crônicos, para pacientes terminais. Mas vejo que nada disso é o caso agora… até pela faixa etária dos participantes do projeto da ConViver. Mas é algo que tem que ser pensado lá para a frente.

E quais os outros apoios que idosos podem ter em uma cohousing?

O que eu acho interessante agora, nesse projeto da cohousing, é que os moradores também podem ter a oportunidade de terceirizar trabalhos domésticos. Por exemplo, lavar e passar roupa, faxina pesada ou jardinagem. Basta ter uma administração central que patrocine todo esse tipo de assistência. Outro grande ganho da cohousing, que vai além desse apoio coletivo, é a possibilidade da convivência com iguais. São pessoas da mesma geração, mais ou menos com os mesmos valores, a mesma linguagem, histórias semelhantes ou que passaram pelos mesmos eventos históricos. Isso, é claro, independente das eventuais diferenças políticas ou religiosas. Você pode ter lá um de extrema direita fanática e um de extrema esquerda fanática. Mas eles convivem e se tiverem bom humor vão até caçoar um do outro. As pessoas conviverem com a diferença é uma coisa fantástica. Mas aí são as pessoas que decidem. Estamos falando de pessoas que estão aptas a tomar estas decisões e que vão fazer os seus grupos a partir de suas características. Porque, na verdade, ninguém é obrigado a nada: a ter muitos amigos, a fazer isso ou aquilo, a ser assim ou assado. E, como tudo na vida, a cohousing, claro, não é para qualquer um. A pessoa tem que saber, ou ser convencida, de que este estilo de vida vai ser bom para ela, para a sua saúde. E, de fato, há fortes evidências e ampla literatura que mostram os inúmeros benefícios da vida na cohousing.

_______________________________

(*) Anita Liberalesso Neri obteve os títulos de Livre Docente em Educação pela Unicamp (1988) e de Doutora e Mestre em Psicologia pelo Instituto de Psicologia da USP, em 1972 e 1976. É graduada em Psicologia pela Universidade de Mogi das Cruzes e licenciada em Pedagogia pela Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras Nossa Senhora do Patrocínio de Itu. Foi Cientista Visitante no Institudo Max Planck for Human Development and Education, em Berlim, Alemanha, em 1994 e 1998. Introduziu o paradigma lifespan em Psicologia e em Gerontologia no Brasil. Seus interesses em pesquisa nos campos da Psicologia do Envelhecimento e da Gerontologia incluem: bem-estar psicológico, mecanismos de auto-regulação do self, atitudes em relação à velhice e paradigma lifespan.

 

 

Tags: , ,

Leave a Reply

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

*